Mudar de carreira pode parecer uma decisão assustadora, sobretudo quando já se tem um percurso profissional sólido construído. No entanto, a vida tem uma forma curiosa de nos mostrar novos caminhos e provar que nunca é tarde para recomeçar.
Durante grande parte da minha vida, achei que o meu destino profissional estava traçado. Desde os meus 6 anos de idade que sabia exatamente o que queria ser: Educadora de Infância. Era a minha verdadeira profissão de sonho. No entanto, a vida encarregou-se de mostrar que o nosso propósito pode evoluir e que nunca é tarde para reescrever a nossa história.
Se alguém me dissesse que um dia trocaria as salas de aula pela mediação imobiliária e pelo Home Staging, eu não acreditaria.
Hoje, olhando para trás, percebo que a coragem de mudar me trouxe uma realização profissional e pessoal que já nem imaginava ser possível.
Qual o seu percurso profissional antes do imobiliário?
Sou licenciada em Educação de Infância pela Escola Superior de Educação de Lisboa e exerci esta profissão durante 22 anos, sempre com enorme dedicação e paixão.
Quando comecei a sentir necessidade de explorar novos desafios, procurei áreas que despertassem o meu interesse. Foi assim que frequentei o Curso de Decoração de Interiores e Home Staging na Escola Internacional de Estilismo e Moda, onde descobri uma verdadeira paixão pela valorização de imóveis para venda.
Para aprofundar esse interesse, realizei a Certificação Internacional em Home Staging através da Associação Portuguesa de Home Stagers. Já depois de abraçar o setor imobiliário a 100%, continuei a investir na minha formação e concluí a Pós-Graduação em Mediação Imobiliária Profissional no ISCTE, em novembro de 2025.
Porque decidiu mudar para o setor imobiliário?
Sempre fui genuinamente feliz a ensinar. Mas a docência é também uma atividade muito exigente. Com o passar dos anos, comecei a sentir o desgaste físico e emocional inerente à profissão. Recordo-me de, ainda durante os tempos de faculdade, ter observado educadoras mais experientes durante um estágio que já não conseguiam lidar com as crianças da mesma forma. Na altura, disse à minha mãe:
"Se um dia sentir que estou a perder a paciência com os meus meninos, vou fazer outra coisa." Achava que esse dia nunca chegaria - ou que, a chegar, seria perto dos 60 anos. No entanto, por volta dos 42 anos, comecei a sentir o peso acumulado do ruído e o desgaste do dia a dia. Percebi que tinha chegado o meu momento de decisão: ou continuava ali até me reformar ou mudava de vida naquele momento. Percebi então que precisava de encontrar um novo caminho. O desafio era descobrir qual.
Passei cerca de um ano a refletir sobre o que queria fazer. Foi nesse período que a decoração de interiores entrou na minha vida. A minha mãe incentivou-me a fazer formação na área e, durante esse percurso, o Home Staging captou toda a minha atenção.
Como descobriu o imobiliário sem estar à procura?
Em 2024, fui convidada para conhecer o projeto de uma nova imobiliária. A minha primeira reação foi recusar a ideia.
"Nunca na vida iria trabalhar numa imobiliária!"
O meu objetivo era apenas prestar serviços de Home Staging para profissionais do setor. Ainda assim, aceitei ouvir a proposta. Durante essa conversa, ouvi algo que mudou totalmente a minha perspetiva:
"Filipa, sempre teve tanto jeito para lidar com as crianças e com os pais. Esta profissão é acerca de pessoas. Vender casas é uma consequência. As relações que se estabelecem são o mais importante. Imagine que as casas são os seus meninos e os proprietários são os pais!"
Foi nesse momento que percebi algo fundamental: o imobiliário não era apenas sobre imóveis. Era sobre pessoas, emoções, mudanças de vida e relações de confiança.
Percebi também que poderia unir as duas áreas que me entusiasmaram nos últimos anos: o Home Staging e a mediação imobiliária. Decidi dar uma oportunidade a mim própria e assinei contrato.
Como foi a sua adaptação ao setor imobiliário?
Foi extremamente desafiante. Eu era o tipo de pessoa que evitava atender chamadas de números desconhecidos e que dificilmente conversava com estranhos. A formação obrigou-me a sair radicalmente da minha zona de conforto. Houve momentos difíceis e situações que me fizeram pensar "O que é que estou aqui a fazer?"
Os resultados também demoraram a chegar. Passaram-se dez meses até receber a minha primeira comissão. A incerteza foi tão grande que, durante esse período, cheguei a fazer uma entrevista para um emprego de escritório das 9h às 18h com ordenado fixo. Quando reuni a minha família para lhes comunicar a decisão de que ia desistir da RE/MAX, os meus filhos surpreenderam-me com um apoio emocionante: "Mãe, tu estás tão feliz na RE/MAX. Nunca te vimos assim! Nós acreditamos em ti, tu vais conseguir."
Aquelas palavras fizeram-me refletir. Percebi que, apesar das dificuldades, adorava o que fazia. Percebi também o impacto positivo que a flexibilidade de horário tinha trazido à nossa vida familiar. Pela primeira vez, podia levar os meus filhos ao médico, ao dentista, assistir às festas da escola ou ir buscá-los assim que tocava a campainha — algo impossível nos meus 22 anos de ensino. Ali senti que tinha encontrado, sem saber, a minha nova profissão de sonho.
Quais as competências da carreira anterior que a ajudam hoje no imobiliário?
Muitas das competências que desenvolvi ao longo de 22 anos de educação são hoje uma vantagem competitiva na minha atividade:
Comunicação e Empatia
O contacto diário com crianças e famílias deu-me uma enorme sensibilidade para ouvir, compreender e adaptar a comunicação às necessidades dos clientes.
Sentido de Responsabilidade e Organização
A capacidade de gestão de sala de aula reflete-se na forma minuciosa como organizo o meu trabalho e a minha agenda.
Olhar Estético e Home Staging
A forma como decorava o meu espaço pedagógico traduz-se hoje na maneira como penso e transformo os imóveis para que sobressaiam no mercado.
Conhecimento de perfis comportamentais
Na educação especializei-me na Metodologia DISC (avaliação de perfis comportamentais). Hoje, aplico essa mesma ferramenta para perceber como cada cliente reage ao stress, toma decisões ou lida com a mudança, adaptando o meu atendimento à sua personalidade.
O que foi mais desafiante?
Sair da zona de conforto e aprender a lidar com a volatilidade do mercado. Mas foi precisamente esse desafio que me trouxe o maior crescimento pessoal. Ganhei confiança, autonomia e autoestima que não tinha anteriormente. Hoje sinto-me uma mulher autónoma, capaz e dona do meu destino. Expressões como "eu consigo" passaram a fazer parte do meu vocabulário diário.
Se pudesse voltar atrás, faria a mesma escolha?
Sem dúvida alguma. Faria exatamente tudo igual. Cada hesitação, cada curso e cada desafio foram necessários para me moldarem na profissional e na pessoa que sou hoje.
O que mudou na sua vida desde que entrou no imobiliário?
Ganhei uma maior liberdade e flexibilidade horária, permitindo-me conciliar a carreira com a vida familiar. Por outro lado, autonomia estratégica. No ensino, sentia-me condicionada por um sistema formatado num modelo "one size fits all", que nem sempre respeitava as diferentes inteligências das crianças (como nos mostra Daniel Goleman e a teoria das múltiplas inteligências).
No imobiliário, não há moldes rígidos. Posso personalizar o serviço para cada cliente, respeitando a sua individualidade e oferecendo um acompanhamento feito à medida. Aqui, cada pessoa é valorizada pela sua singularidade.
Que conselhos práticos daria a quem está a pensar mudar de carreira?
A sua bagagem tem um valor inestimável: Não ache que está a começar do zero. A empatia, a ética e a capacidade de comunicação que desenvolveu na sua carreira anterior são peças de ouro no setor imobiliário.
Esteja disposto a sair da zona de conforto: O início pode assustar e os resultados podem demorar, mas o crescimento pessoal que vem do outro lado do medo é transformador.
Escute a sua família e confie no processo: Rodeie-se de pessoas que acreditem em si, invista na sua formação contínua e não desista nos primeiros obstáculos. A recompensa de trabalhar com paixão e liberdade vale cada segundo.
